10 dezembro, 2007

Barrancos: Município quer tornar barranquenho dialecto oficial e Património Linguístico Nacional

Como resposta à Vera Ferreira, transcrevo uma noticia da Agência Lusa de hoje. Quando há vontade politica do Municipio, pode-se ir sempre mais além:



Barrancos, Beja, 09 Dez (Lusa) - Considerados "portugueses de manhã e espanhóis à noite", os barranquenhos lidam touros até à morte, cantam modas alentejanas e sevilhanas, comem açordas e tortilhas e falam um dialecto peculiar, que o município quer tornar Património Linguístico Nacional.

Na vila raiana de Barrancos, no limite do distrito de Beja e junto à fronteira com Espanha, o modo de falar barranquenho é a mais notória característica da identidade étnico-cultural de um povo marcado por uma mistura de costumes e tradições dos dois lados da fronteira.
Em Barrancos ouve-se falar português (a língua oficial), espanhol (sobretudo entre os mais velhos e na literatura oral tradicional) e um misto peculiar destas duas línguas, conhecido como "falar barranquenho" e maioritário nas bocas das gentes da vila.


"Queremos preservar e valorizar o barranquenho que é um dialecto único e um elemento de valor incalculável e indispensável para conhecer e entender a identidade da terra e das gentes de Barrancos", disse à agência Lusa o presidente da Câmara Municipal, António Tereno.

O município de Barrancos, em parceria com os congéneres espanhóis de Cedilho e Herrera de Alcántara, localidades da província de Cáceres e onde também se fala um dialecto misto de português e espanhol, e as universidades de Évora e da Extremadura espanhola, vão desenvolver um projecto para "estudar, preservar e valorizar as falas destes povos".
Após uma primeira reunião preparatória, os parceiros vão assinar um protocolo para "materializar o projecto", que deverá arrancar no terreno no início de 2008.

Quanto ao barranquenho, "o primeiro passo será candidatar o dialecto à classificação de Património Linguístico Nacional", junto do Ministério da Cultura, disse António Tereno.
Em paralelo, o projecto vai "actualizar os estudos sobre a história, o vocabulário e a gramática do barranquenho", adiantou à Lusa a vereadora da cultura do município de Barrancos, Isabel Sabino.


"O objectivo é conseguir que o barranquenho seja reconhecido oficialmente como um dialecto, para que possamos introduzi-lo como disciplina opcional na Escola Básica Integrada de Barrancos", explicou a vereadora.

"Mais do que a classificação como Património Linguístico Nacional, o reconhecimento oficial como dialecto, o estudo e o ensino nas escolas é a melhor forma de preservar e prolongar o barranquenho nas bocas das gerações vindouras", defendeu António Tereno.

O novo estudo vai partir de outros já realizadas sobre o barranquenho, como os do filólogo português José Leite Vasconcelos, nas décadas de 30 e 50 do século XX, e da filóloga espanhola e docente da Universidade Complutense de Madrid (UCM) Victoria Navas, que investigou o dialecto, após várias estâncias prolongadas em Barrancos, entre 1987 e 1990.
A investigação de Victoria Navas, que a autora diz ser "apenas um primeiro esboço para uma análise mais detalhada", resultou no artigo "O barranquenho: um modelo de línguas em contacto", publicado na Revista de Filologia Românica da UCM, em 1992.



A proximidade com Espanha e o isolamento de Barrancos "tornaram possível a criação de um dialecto transfronteiriço, falado em contexto plurilingue e produto do contacto linguístico prolongado entre habitantes de duas línguas diferentes: o português (variedade alentejana) e o castelhano (variedades andaluza e extremenha)", explica a investigadora no artigo.
Esta mistura, que inclui vários arcaísmos e originou novas palavras, até agora só registadas em barranquenho, torna este dialecto difícil de compreender aos "ouvidos alheios" ao falar dos naturais de Barrancos.


Lusa/Fim

7 comentários:

Vera Ferreira disse...

Obrigada João pela sua resposta exemplificativa. É exactamente a essa vontade política mas também social (da sociedade de Minde) que tenho apelado no meu trabalho de investigação, preservação desenvolvimento do minderico.

Quem sabe se um dia juntos e com vontade verdadeira não poderemos aspirar aos mesmos objectivos que espero não estejam num futuro longíquo. Eu pelo menos tenho-os em mente, mesmo sendo "covana e tendo mirantado a borboleta na terruja a 2 das da póvoa do Casal Médio de Cima sou e serei antónio forno pela piação, pelo ninhou e os seus charales".

Vera Ferreira

Joao M Querido disse...

Está a preparar alguma tese de investigação sobre o Minderico? E não encontra nos nossos línguistas (do Casal Grande) feedback ou interesse? Talvez do desconhecimento...

Sabe, o facto de chamarmos Calão Minderico e não Dialecto Minderico fecha os horizontes e o interesse. «Calão» é associado a certos extractos sociais, alguns deles marginais. Dialecto já é algo mais proximo de uma língua. O Minderico peca por isso.

Há uns meses o Sr. Agostinho do Jornal de Minde pediu-me uns textos em calão que eu tinha fotocopiado do Portomosense. Infelizmente nessa altura tinha acabado de sofrer um acidente de viação há pouco tempo, a minha esposa ficou de baixa largos meses, foram meses complicado e não lhe respondi.

Está interessada nesses textos?

Vera Ferreira disse...

Eu própria conheço muito bem a realidade linguística de Barrancos pelo trabalho de campo que lá desenvolvi em 2002. E também aí pude constatar a falta de "vontade" dos colegas nacionais apesar das vontades do munícipio e da sociedade. Por isso mais de louvar são iniciativas desta natureza. Só é pena que se contem pelos dedos de uma mão. No entanto, o seu começo prova que as mentalidades vão mundado e que lentamente se começa a perceber que se tem de deixar de fazer linguística de gabinete.

A diversidade linguística de Portugal não se resume ao mirandês, barranquenho, sendinês, riodonorês, guadramilês, além da divisão dialectal de Celso Cunha. E não deveria ser preciso por parte dos linguistas haver directrizes politíticas para que um fenómeno linguístico ganhe interesse e valor. Os valores científicos deveriam falar mais alto porque os seus resultados podem servir de "empurrão" para as decisões políticas.

Há ainda imenso para descobrir no nosso Portugal, é só preciso ter vontade de trabalhar. Na verdade, fazem-nos falta muitos Leite Vasconcelos!

Vera Ferreira

PS: No que puder ajudar para retomar os encontros mensais na "loja do Mestre Migança" contem comigo.

Vera Ferreira disse...

Muito obrigada mais uma vez pela sua resposta João. Fico muito contente pela sua ajuda. Sim de facto estou a preparar um projecto de investigação de 3 anos exclusivamente sobre o Minderico na universidade de Munique, se tudo correr bem a ser financiado pela Fundação Volkswagen. No Jornal de Minde de Agosto de 2007 saiu uma notícia sobre o respectivo projecto, que terá duas longas fases de trabalho de campo.

Do Casal Grande não se pode contar com ajuda nesse sentido. Não é apenas uma questão de designações (calão ou dialecto - se bem que eu própria defenda antes a designação de língua porque melhor se adapta à realidade Minderica) mas sim pelo facto da investigação do minderico não ser "rentável", se é que me faço entender.

No que estiver ao meu alcance o minderico não só irá ser preservado como progredirá.

Fui eu que pedi ao senhor Agostinho se conseguiriamos arranjar mais textos sobre e em minderico e ele falou-me de si. Provavelmente entrou em contacto consigo nessa altura. Seria muito bom se me pudesse disponibilizar esses textos.

Gostava também de o convidar desde a participar e a ajudar no projecto no caso do mesmo conseguir ser concretizado. Todo o apoio será bem vindo.

Vera Ferreira

Joao M Querido disse...

Pois eu nunca fui a Barrancos mas gostava de lá ir. As pessoas falam da Olivença que perdemos mas esquecem-se da Barrancos que ganhamos.

Mas já estive uma tarde inteira em Rio de Onor, saltando entre Portugal e Espanha sem saber como. Assim como em Guadramil.

Portugal é de uma diversidade tremenda. Venha sempre.

pm disse...

Olá Vera,

Agradeço o seu interresse e entusiasmo pelo n/ Minderico, e em nome de Minde, muito obrigado pelo trabalho desenvolvido.

Eu próprio não me tenho empenhado muito no Fórum de Minde, mas prometo que irei dinamizar e organizar as coisas para implantarmos ali uma verdadeira "escola de Calão Minderico. Tenho também uma idéias e projectos em mente que gostaria de discutir consigo.

Entretanto deixava-lhe um pequeno desafio:
Seria possível a Vera enviar-nos um pequeno texto de Boas Festas para publicar neste blog e que desse para os Charales do Ninhou copiarem e enviarem por SMS aos amigos nesta quadra de Natal.

O ano passado hove uma iniciativa do género, e foi giro.
Fica o desafio, e, já agora, votos de um Feliz Natal !!!

Joao M Querido disse...

Boa noite, Vera

Tenho todo o gosto de lhe facultar os textos que, há uns anos, fotocopiei na Bibioteca Municipal de Porto de Mós das primeiras edições do jornal Portomosense.

Nessa altura Minde pertencia ao concelho de Porto de Mós e era correspondente do Jornal em Minde um professor primário, meu triavô, de nome António Jesus e Silva, tendo publicado vários textos em calão minderico.

Por que isto extravassa os objectivos deste blogue, criei um endereço virtual:

joao.querido@imap-mail.com

que apagarei logo que a Vera envie um email com o seu endereço.

Obrigado.