25 abril, 2009

O Minderico e a Piação da Mira


Sob o título, Calão Minderico no Portomozense, em 28 de Janeiro deste ano publiquei o texto abaixo, reproduzido do semanário "O Portomozense" cujo artigo datava de 28 de Novembro de 1903.
Quando reproduzi o texto, até oferecia um prémio a quem usasse traduzir, mas não houve candidatos. Hoje já não ofereço prémio nenhum, mas o desafio continua.
Quem é capaz de traduzir este texto?



CALÃO MINDERICO (*)
Carranchano.
Estive hontem no parrei­ral do Ninhou.. O fundador do Covão ás 12 do bandarra mandou-me a mulher do Francisco Lobo ao parreiral a fim de cavalleirar em sua do Quincas.
Para que o cardeta avalie o cavaíleiro, ponha os das orelhas.
Em cima d'uma do Casal Farto mirantava-se n'uma do Juncal o filho da Santi­nha lançando bispo. Uma da Amora com o sogro do António Perinho e dois da Marinha ; mettemos pois na tosadeira alem do genro do José Filippe, linhas tintas, rénhanhé, sogro do Manoel Lico, do gaiva ou filho do Tróia. A' sobre a de Bolleiros rnatto da portella, mães do Val da Serra, çhinezas, dos coutos e por ultimo venezo com batarraba.
Como á hora de cavalleirar o malhado traz mais um, appareceu o Estevães do Ninhou com ares densca. Se visses a maneira como mettia na tosadeira o genro da Bia e o saltacatrepa!. .. Os da Marinha andavam sempre nas gambias. O folho da Gosta e filho de Matildes, oh ! Deus !,..
A's 4 do bandarra sentado na jaleca do meu António d'Almeida tomava o d'el-rei para a minha do Domingos Pedreiro, em Arniaes.
N. B. A Arraiollos subiu, as bélicas das do Alegre baixaram e a sogra do irmão do Francisco Vaz, d'Aljubarrota estaciona.
Teu Filho do Fernando. José Ramos, de Amiàes.
A. de Jesus e Silva (28.11.903)

(*) Para satisfazer, em parte, ao pedido do exm°. Alberto Pimentel, Rua de S. João da Matta, 1, E, em carta de 15, dou uma missiva que mandei a um meu patrício e amigo que andava negociando no Alemtejo.
• Aos outros pedidos irei também satisfazendo.






Agora os nossos vizinhos Mirenses vêm dizer que têm o Calão Mirense já com trezentos anos. Pelo meno é o que publicou o Região de Leiria na edição impressa de 20.02.2009.
Dizem que vão fazer um livro. Acho que podem evitar esse trabalho, pois poderemos oferecer-lhe um dicionário da Piação do Ninhou visto que aquilo a que eles chamam de Calão Mirense não é mais do que um plágio completo do Minderico. Apenas a proximidade das duas terras fez com que os Mirenses começassem a piar à modeia com os Mindericos. A rivalidade e o pudor levou a que nunca tivessem a coragem de assumir que a Piação era do Ninhou.
A propósito, que nome é que os nossos vizinhos darão ao tal calão Mirense? Será a "Piação dos Charales da Terruja de Santo Estêvão"?




Calão mirense está à beira da extinção
Imagine um “zé pequeno”, com “venezo”, “vale da serra” e “granadeiras”. Ou seja, um almoço com arroz, azeite e azeitonas. Demasiado vegetariano? Junte-lhe “pelota”, isto é, carne. Estas são apenas algumas das palavras do calão mirense ameaçado de extinção.
Actualmente não ultrapassarão a dúzia o número de pessoas que dominam o calão mirense, código linguístico com três séculos nascido em Mira de Aire e que corre o risco de desaparecer para sempre.

Carlos Alberto é o comandante dos bombeiros locais e sabe reconhecer uma emergência. E esta é uma situação que está muito perto de se tornar urgente. Se nada for feito, dentro de poucos anos o calão corre o risco de deixar de ser falado, e o esquecimento assinará a sua certidão de óbito. Carlos Alberto conta-se entre os últimos falantes do calão mas ainda acredita ser possível evitar o desaparecimento de um dos mais originais patrimónios da freguesia.

Existem alguns documentos escritos, artigos de jornal em calão mirense, mas não há um dicionário sistematizado, ao contrário do que sucede com o minderico – calão “irmão”, da freguesia vizinha de Minde. Parte da sua esperança reside na possibilidade da comunidade escolar avançar com algum projecto no sentido de ajudar a preservar o calão mirense. João José, presidente do Agrupamento de Escolas de Mira de Aire e Alvados confirma a intenção de desenvolver um projecto nesta área, mas o assunto ainda está a ser estudado. Quanto avançar Carlos Alberto será um dos dinamizadores.

O calão mirense foi uma ferramenta preciosa sobretudo para os comerciantes locais que assim comunicavam entre si sem serem percebidos. E foi entre essa população que mais se difundiu. O pai de Carlos Alberto era comerciante de peles e foi com ele que aprendeu. É sobretudo necessário conhecer bem Mira de Aire e a sua história para o conseguir entender e falar. É que o significado das palavras remete não raras vezes para a realidade local.

A ementa que surpreendeu o presidente.
Foi em calão mirense que o ex-Presidente da República, Mário Soares, foi presenteado com a ementa da refeição com que foi recebido em Mira de Aire, numa visita que realizou à vila em Abril de 1994, durante uma presidência aberta. A riqueza do calão foi evidente, pois só com tradução percebeu o que ia poder comer.
Publicado no "REGIÃO DE LEIRIA"


16 comentários:

Um Charal do Ninhou genuíno disse...

José Hermano Saraiva há uns anos, em palestra no Cine-Teatro Roque Gameiro afirmou que Mira é FILHA de Minde.

Os mirenses são, pois, descendentes de Mindericos.

Melhor, Mira de Aire, foi povoada por Mindericos. Os mirenses são nossos filhos.

O pseudo-calão deles é a Piação do Ninhou.

Fica mal aos nossos filhos mirenses ROUBAREM aquilo que é dos pais.

Anónimo disse...

Calão mirense está à beira da extinção?
Como? Se ele nunca existiu!!!
São uns líricos estes vizinhos.

Dos palermas não reza a história disse...

Consta que os nossos filhotes mirenses estão a pensar fazer uma petição nacional para que o calão mirense que jamais existiu seja considerado a 2 língua nacional.

É PRECISO TER MUITA LATA OU ENTÃO ESTA GENTE DEVE ESTAR DEMENTE - MAS EU INCLINO-ME MAIS PARA UMA COMPLETA FALTA DE VERGONHA NAQUELAS CARASvão mas é lavar a cara ao POIO.

wolfinho disse...

Calão Mirense uma lingua com 300 anos!!!???

Estudei em Mira d'Aire nunca ouvi tal coisa, qualquer coisa com 300 anos de história não passava assim tão desprecebido e só hoje ao ler o blog ouvi falar em tal coisa.

Enfim, imitar é bonito, copiar é que não...

Anónimo disse...

Esta tentativa de,esquecendo as suas origens, quererem agora o reconhecimento de um calão que nunca existiu, já não é nova. Já o falecido Dr. Luciano também teve essa veleidade que depois abandonou talvez por se aperceber do ridiculo em que estava a incorrer. Mira de Aire poucas ou nenhumas tradições culturais tem e é uma vila muito mais moderna que Minde; diz-se mesmo que terá nascido após a instalação de uma família escorraçada de Minde.Também é conhecida a tentativa de associarem a nossa morcela a Mira de Aire o que é mais uma prova de indigência cultural!
Mas enfim, quem não tem nada de jeito para apresentar, para além da ancestral cagança, tem que se socorrer dos bens alheios!
Vejam o caso da Mata de Minde: vão ver aos livros antigos, nomeadamente aqueles por onde estudávamos, e vejam se aparece o nome de Mira de Aire associado à Mata!
Esta tentativa é ridicula!
Mas eu já estou como o outro: o melhor que tem a Mira é a estrada para Minde!

Anónimo disse...

Calão mirense!!!!!!
Realmente é preciso ter lata.E eu a pensar que já não eram necessárias quesilias entre os vizinhos.mas ao ver isto,euque nem gosto de guerras fico um bocado revoltado.Bem so vem mostrar que temos todos de nos empenhar com o carlos e com a vera para que a nossa lingua se torne o mais rapido possivel oficial porque pelo que estou a ver ja anda a sofrer copias piratas.fui agora a este site http://vivermiradeaire.blogspot.com/ e tive de me rir com esta palhaçada.
PEQUENO VOCABULÁRIO DO CALÃO MIRENSE

ALFORGES - Beringeis
ALMOÇO - Zé pequeno
ANO - Planeta
ARROZ - Venezo
AZEITE - Vale da Serra
AZEITONAS - Granadeiras
AÇUCAR - Brasileiro
BACALHAU - Navega
BATATA - Pera Serrada
BIGODE - Roda Pé
BOCA - Tosadeira
BOI - Turino
BOM - Cópio
BROA - Risota
BURRO - Tróia
CABEÇA - Caturra
CAJADO - Samoucal
CALÇAS - Cardosas
CAMA - Giraldo
CAMISA - Berliquia
CARDADOR - Tanoador; charal
CARNE - Pelota
CARNE DE PORCO - Pelota de bicho sarrudo
CARTA - A de rio alcaide
CARTEIRA - A do João do Rato
CASA - Classe
CASAR - Emanar
CHAVE - A do Serralheiro
CHIFRES - Azeiteiros
CINTA - A da Conceição Inácia
COELHO - Cartifo
COLETE - O facada
COMIDA - Trilha
CONVERSA - Piação
CÃO - Modeio
DEFECAR - Enfigueirar
DINHEIRO - Neto
DORMIR - Passar pelo regueira
EMBEBEDAR-SE - Emotear-se
ENXADA - A do pai adão
ERVILHAS - Guisates
ESCUDO - Montante
ESPOSA - Emanada
ESTRADA - A Del´Rei
FACA - A de Guimarães
FAVAS - Lajas
FEIJÕES - Batalheiros
FIGOS - Lutos
FOME - Ambria
GALINHA - Souto-Sico
GARFO - Carretadeiro
GATO - Cartifo
GRANDE - Ancho
HOMENS - Charais
HORAS - As do Bandarra
IGREJA - A do João Pedro
INDIVIDUO - Covano
LENHA - A do Monteiro
LUME - O de Alhandra
LÃ - A de Arraióis
MANTA - Meniza
MANUSEAR - Adogaivar
MAU - didi
MIRA DE AIRE - Cidade de Santo Estevão
MORCELAS - As do Albino Jorge
MORRER - Espadilhar
MÃE - Antiga
MÃO - Adogaiva
NARIZ - Chaveca
NEGOCIANTE - Charal
OLHO - Mirante
ORELHAS - Guarda Lamas
PADRE - Raso; Francisco Vaz
PAI - Antigo
PEDRA - Santo Estevão
PEIXE - Navega
PERAS - Reconqueiras
PERCEBER - Penetrar
PORCO - Bicho sarrudo
PRATO - O de Malpique
PULGAS - Cacildas
PÃO - Cinquete
QUEIJO - Portel
RABO - Torquelho
RAPARIGA - Tirrazinha
RAPAZ - Tirrazinho
RELÓGIO - Bandarra
RETRETE - Guedes
SAPATO - Balões
SONO - O da Regueira
TEAR - Tronco
TERRA - Terruja
TOSTÕES - Marroazes
TREMOÇOS - Alcains
TRIGO - Folha da Costa
URINA - Regatinha
URINAR - Regatinhar
UVAS - Labranças
VINHO - Gandil; Mota
VINTE ESCUDOS - Uma de São Mamede
ÁGUA - Regata.
Não e com esta originalidade que os mirenses la vão não.
abraço

PM disse...

Bem, pelo menos alguma coisa eles já alteraram:
Mira de Aire deixou de ser "Terruja de Santo Estêvão", para passar a ser "Cidade de Santo Estêvão".

Anónimo disse...

Esta listagem mostra bem uma coisa; a Mira não passa de um arrabalde de Minde.

É assim como uma espécie de Reboleira da Amadora.

Anónimo disse...

que pobreza franciscana estes mirenses.
até alguns mirenses jovens, educados e evoluídos com que falei se riram e envergonharam com isto...

Anabela disse...

o que eu aconselho e ja o fiz,é mandar mailes para o jornal de leiia a denunciar a fraude que é este calão mirense.so assim este artigo e este suposto calao mirense podem ser enterragos no sitio onde devem estar ou seja no lixo

Anónimo disse...

Para a proxima sejam originais

PM disse...

É assim mesmo Anabela. Quem não se sente não é filho de boa gente, e um jornal com o prestígio do Região de Leiria não deve publicar sem investigar a credibilidade das fontes. Também vou enviar um mail de protesto e também deixei um comentário no blog onde a Anabela tb já comentou.

Anabela disse...

Fiz me passar por mirense e enviei este mail:"Muito boa noite.
antes de mais quero vos dar os parabéns pela iniciativa,já que parti à alguns anos de mira d'aire e esta é uma execelente forma de estar a a par das notícias.
Tenho uma dúvida que se prende com o facto de no vosso site falarem na existência de um calão mirense. Lembro me que quando aí vivia ouvia sim falar do calão dos nossos vizinhos mindericos.Com curiosidade pesquisei e vi que o que está como amostra no vosso blog é igual ao calão minderico.Até que ponto não é uma cópia??
Com muitas saudades da sempre mirense Clara"

Ao qual eles responderam:"Ola, boa noite e obrigado pelo seu contacto.

Reza a historia, que o calao mirense (e o minderico) surge intimamente ligado ao comercio das peles e mantas da nossa regiao. De facto, os vendedores destes artigos e desta regiao em tempos alargaram o seu campo de accao e actividade as restantes regioes do pais. Fora da sua terra natal, unidos pelo bairrismo e camaradagem, para melhor manterem o segredo do seu negocio e das suas conversas, inventaram uma linguagem secreta, a que chamaram lamuria ou calao. Estamos assim em crer que nao se trata de quem copiou quem pois ambos foram criados pelos nossos antepassados de toda esta zona.

Agora, ja pudemos constatar (com alguma pena...) que existe uma base bibliografica em papel e na internet mais fecunda e divulgada, promovida pelos nossos vizinhos de Minde, facto que naturalmente leva os interessados a pensar que somos nos Mirenses que estamos a copiar.

Em breve lancaremos no site uma breve abordagem a forma como cremos que se formou o calao mirense, de acordo com algumas pesquisas que efectuamos.

Por ultimo, os termos presentes no site foram os que conseguimos descobrir ate ha data e iremos actualizar a lista sempre que novos termos nos sejam dados a conhecer.

Obrigado pelo seu interesse, participacao e... volte sempre

Saudacoes Mirenses"

joaocostita disse...

Querida Anabela, isso de te passares por mirense, foi uma grande ideia, ainda que, foi fácil perceber que eras mindrica pois só uma pessoa da periferia toma uma atitude dessas, enfim o calao mirense existe desde o sec. XVII e terei o maior prazer em demosntrar- te isso mesmo!
E...caros "vizinhos" continuem a falar tanto de nós pois isso só mostra o importante que somos para vós... Saudaçoes da Terruja de Santo Estevao

Anabela disse...

Oh joao tu tavas bem era a inventar uma coisa nova e nao a reinventar o calao mirenser sob um suposto nome de calao mirense

Anónimo disse...

eu acho que os mirenses fazem bem e uma lingua que esta em extiçao esperoque consigam!!!