11 outubro, 2006

Quem não semeia, não colhe



Na edição Nº 582 (30 Setembro) do Jornal de Minde podemos ler um excelente artigo publicado pelo Sr. Agostinho Nogueira.
Porque concordo totalmente com o seu conteúdo, e porque entendo que o assunto é merecedor de uma profunda reflexão, tomei a liberdade de aqui o reproduzir integralmente.


QUEM NÃO SEMEIA, NÃO COLHE...
Há muito quem queira mamar na teta,
não há é quem dê palha à vaca...

«Tivemos conhecimento de que, recentemente, um alto responsável da nossa Câmara referia publicamente que a que­bra na cobrança da Derrama prevista no orçamento camarário foi de tal ordem que se torna um quebra-cabeças elaborar o orçamento para o próximo ano.
As razões não parecem difíceis de encontrar.

Em 1994 entrava em vigor o PDM.
Nele se previa a construção de duas zonas industriais, uma na área de Alcanena e outra na área de Minde.
Os estudos e negociação dos terrenos começaram desde logo, tendo-se feito a aquisição de algumas parcelas cujos proprietários entenderam aceitar o preço oferecido pela Câmara, numa atitude de colaboração, com vistas a um benefício que a todos parecia de importância capital para o progresso das respectivas localidades e do concelho em geral.
Entretanto entendeu-se que a aplicação de fundos para o avanço das diversas obras a concretizar necessitava de estudos elaborados por equipas competentes e durante meses trabalhou-se no PECA - Plano estratégico do concelho de Alcanena, que foi publicado em 1997
Mais tarde entendeu-se que este estudo não era suficiente e tratou-se de mandar elaborar outro, cujo conteúdo é tão útil como o que antes fora elaborado. E, entre estudos e planos estratégicos, os anos foram pas­sando sem que nada de concreto apa­recesse no domínio das ditas Zonas In­dustriais.

Os processos de expropriação arras­taram-se indefinida­mente, fez-se passar a ideia de que talvez as Zonas Industriais já venham fora de tempo depois que as indústrias principais do concelho sofre­ram um duro revés, atingidas pelo avan­ço da globalização, pelas po­líticas de defesa do ambiente, e pelas normas de um PDM que impossibilitou o seu desenvolvi­mento nas áreas onde estavam implantadas, contando que so­luções viáveis estariam disponí­veis a curto prazo

Passados dez anos, quando se fala na elaboração de um no­vo PDM, ou na correcção do que existe, é triste pensar que, nesta matéria, do PDM que se encon­tra ainda em vigor nada mais se aproveitou senão as restrições que ele mesmo impunha. Dos estudos mandados elaborar e pagos pela autarquia restam resmas de papel algures arre­cadadas à espera de melhores dias. Investimentos vultosos como esses mesmos estudos, as Nascentes do Alviela, a Festamb, o pavilhão multiusos consumiram (consomem) rios de dinheiro, sem contrapartida que se veja, e a iniciativa privada baixou para níveis que ninguém podia imaginar há vinte anos atrás.
Nos nossos dias, gente nova e menos nova já assegurou o seu posto de trabalho nos concelhos vizinhos, Torres No­vas, Ourém, Tomar, Leiria, e até Lisboa. Por enquanto aqui dor­mem os seus filhos e frequen­tam a escola, mas não tardará que o peso das raízes, um lugar sossegado e uma bonita pai­sagem para usufruir nos fins-de-semana deixem de contar pe­rante a vantagem de viver perto do local de trabalho. A desertificação tem sido um fenómeno de que ouvimos falar lá para as zonas mais no interior, mas já está a processar-se entre nós, e os seus efeitos serão cruciais nos próximos tempos.


Entretanto, ao nosso lado, outros concelhos progridem a olhos vistos - Torres Novas, Ourém, Rio Maior são exemplo dis­so, para só referirmos os que se situam no nosso distrito. O carácter de ruralidade de alguns deles, há vinte anos atrás, contrastava abertamente com o índice de industrialização do concelho de Alcanena.
Verdadeiras zonas indus­triais estão a surgir sem planea­mento a seguir às fronteiras do nosso concelho, como acontece na zona da Videla, à sombra do cruzamento da A1 com a A23
... e no planalto da Serra de Aire, a seguir à área de repouso da A1, paredes meias com o Vale Alto.
Placas a anunciar postos de trabalho na área da construção civil, pavilhões que se erguem e vão albergar indústrias, derramas que se adivinham e que irão proporcionar aos respectivos concelhos fundos para prosseguirem outros objectivos.
Em boa verdade, como sempre afirmou a sabedoria popular,
"Quem, não semeia não colhe"!

Daniel Bessa
O conhecido economista esteve recentemente em Mira de Aire onde participou na 1a reunião descentralizada da Assembleia Municipal de Porto de Mós.
Disse ele nessa altura que a grande competitividade do con­celho está na proximidade de um dos poios mais dinâmicos de desenvolvimento do país - o eixo Leiria-Marinha Grande.
Sobre Mira de Aire, a pro­ximidade do nó da A1 em Torres Novas é um grande atractivo, já que a indústria têxtiil está conde­nada a perder mercado, (/n Re­gião de Leiria 29/09/06)
...Só que, para tirar dividen­dos desta situação, é preciso conquistar interesses, e isso não se faz optando por elevadas ta­xas da Derrama e do Imposto Municipal sobre Imóveis - IML Por isso, no concelho de Porto de Mós optou-se pela Taxa O na Derrama e por baixar a taxa do IMI de 0,3 para 0,2%.
É que, há muito quem queira mamar na teta, não há é quem dê palha à vaca.»

A. Nogueira, in Jornal de Minde (30 Set)
NOTA: As ilustrações não são de responsabilidade do autor

1 comentário:

pm disse...

Como sempre, o Sr Agostinho Nogueira habituou-nos a leituras muitos lúcidas sobre os assuntos que expôe.

Os autarcas têm uma cota parte muito importante no desenvolvimento das regiões.

Sem acusar ninguém (cada um que faça o seu juízo) o certo é que é necessário dar a volta ao texto. A continuar assim, podemos estar certos de que Minde ainda baixará muito no número de habitantes.
Não há condições...