29 setembro, 2006

(Jardins Proibidos)



Se Justino Guedes sonhasse que a construção de sua casa de campo iria ser motivo de tanta história, certamente teria pensado duas vezes. Contudo, julgo que seria esse o seu objectivo. Uma casa só entra para a história quando merece ter histórias. E a Casa Açores merece ter histórias. Em boa hora o irmão do Mestre Roque Gameiro a mandou construir. Hoje é património local.

Construída em dois pisos num dos extremos da propriedade, marca a sua época com pormenores ricos em cantarias e interessantes em termos de arquitectura. Toda exposta ao Sol Nascente, revela na sua implantação a exigência de aproveitamento máximo do terreno para a construção de belos jardins. No outro dos extremos fica o célebre Torreão. Pequeno estúdio, que ao mesmo tempo delimita a propriedade e serve de cunho que “dá carácter à casa e um certo ar misterioso ”.

Foi casa de férias da família durante muitos anos. Imagino os bons momentos que filhos e netos devem ter passado naqueles belos jardins. Frondosos, bem tratados e cheios de mistérios, eram o sonho de todos os que passávamos do lado de cá do muro.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e depois de um certo abandono, a CM de Alcanena acabou por adquirir todo o património há cerca de 5 ou 6 anos.
Excelente decisão. Uma medida correcta e de aplaudir.
Disseram-me que custou 45 mil contos. Bom negócio. O património em causa vale esse valor.
Também ouvi dizer que o provável destino era colocar a Casa Açores ao serviço da cultura através do CAORG. Excelente ideia. O local ideal.

Após demolirem as escolas e com a entrada em cena do terreno das Eiras, as vontades ganham novos horizontes e tudo se começa a complicar e indefinir. Ninguém sabe nada. Dois espaços nobres com uma área considerável na zona central de Minde, e não existem quaisquer planos conhecidos da população.



As infiltrações eram muitas e o telhado ameaçava ruir, o que impeliu a CM Alcanena a proceder a uma substituição completa da cobertura. A obra foi adjudicada por 125 mil euros (25 mil contos) à Construtora do Lena. Queixam-se alguns prestigiados empreiteiros em Minde que a obra não teve concurso, nem foram convidados a dar orçamento («para uma obra na terra»).
Este telhado, custou a exorbitante fortuna de mais de 150 “contos” por M2, e mesmo assim o orçamento não deu sequer para “dar um arranjo” no pequeno beirado sobre o portão de entrada. Orçamentos curtos. Porca miséria.
A chaminé exterior, com o reboco caído e os cunhais de pedra desacompanhados, ameaça ruir, mas ninguém se preocupou em gastar uma saca de cimento para consolidar a situação. No contrato não constava e o orçamento não dava para mais.
O certo é que o telhado está lá, assim como o cartaz que assinala a obra.



E Agora ?

Para que possa haver algum benefício e retorno de um investimento que já foi iniciado à meia dúzia de anos, é necessário que comece a ter alguma utilidade. Os exteriores precisam de ser restaurados e os interiores completamente remodelados, incluindo infra-estruturas. Não sai barato, e se olharmos só para o custo que a CMA pagou pelo telhado, imaginemos a “conta”.
E os Jardins? E o restauro do Torreão? E os anexos? E as ampliações? E a ecologia? Oh, oh! Tá aqui obra.

As Eiras surgiram e a ideia de construir um edifício de raiz, em betão, num terreno plano, para as sedes das colectividades, é uma solução aliciante para os autarcas da CMA. Gastam menos dinheiro, constroem um edifício de maior visibilidade e de uma assentada resolvem o problema do CAORG e SMM, ficando com as colectividades na mão.
A maior vantagem é que conseguem pôr no congelador o dossier Casa Açores. Esse “berbicacho” ficará para quem vier depois.

Mais contentes, ficaram, esses mesmos autarcas, quando surgiram as diversas correntes de opinião sobre o assunto. Enquanto não se encontrar uma solução mais consensual, não terão de mexer uma única palha. «O pau vai e vem, mas folgam as costas».
Pelos vistos, a política do silêncio, da indefinição e do secretismo começa a dar frutos aos seus progenitores. Os anos passam e nós cá vamos indo…



Mas o assunto era a Casa Açores. Que destino?
Pelo seguimento que as coisas estão a levar, não lhe prevejo um destino muito risonho a curto ou médio prazo. Não há ideias, um plano, nada! Os custos são elevados, e não há vontade política em executar uma obra sem grande visibilidade

Se visitarmos hoje os jardins da Casa Açores, verificámos que existe uma parcela considerável que merece manter, mas outras áreas existem em que o jardim não passa de meros arbustos. Porque não equacionar o aproveitamento destas áreas para através de uma solução imaginativa, conciliar vários mundos. As soluções são redondas, e os maiores desafios, por vezes, apresentam os melhores resultados.

Não me indigna nada a ideia do espaço Açores ser concebido de modo a preservar a identidade das construções e jardins existentes, e a funcionar como um Centro Cultural. Uma “Gulbenkien” à dimensão regional. Só um projecto deste género poderá viabilizar uma utilização justificativa dos investimentos realizados e futuros. Um concurso de ideias poderia ser interessante.

A viabibilade de qualquer solução passará sempre por uma estratégia de autonomia e auto-sustentação económica do espaço. Caso contrário, a Casa Açores irá ser sempre um enorme Elefante Branco.
PM

1 comentário:

krasiva disse...

Concordo completamente que é urgente revitalizar o espaço. Dos poucos espaços que há em Minde é burrice não aproveitar o que temos. Por razões pessoais, tenho muita pena pelo que está a acontecer. Os meus avós, enquanto vivos, tomaram conta da Casa Açores como se esta fosse deles. A minha avó passava o dia a arranjar o jardim, a regar, a cuidar da casa, para que quando os donos fossem passar férias a Minde ela estivesse habitável. Eu própria passei a minha infância ali, era como se aquele espaço fosse meu. Tenho muita pena que esteja votado ao abandono, depois da minha avó lhe ter dedicado tanto do seu tempo. Acho que a Casa tem muito potencial, por favor não arrastem uma tomada de decisão mais tempo.